A pandemia é uma ferida aberta, mas o racismo é um corte muito mais profundo

Quantas petroleiras ou petroleiros negros há na categoria? Você sabe dizer? Transferindo para sociedade, a regra desigual da injustiça por acesso ao mercado de trabalho, por exemplo, não é clara, é negra.

[Da imprensa da FUP e do Sindipetro-PR/SC]

A crise sanitária e social gerada pela pandemia da covid-19 é o maior exemplo de como a população negra continua sendo segregada no Brasil. Durante o painel “Racismo estrutural e a classe trabalhadora”, que encerrou a programação desta quinta-feira, 16, do 18º Congresso Nacional da FUP, o historiador Flávio Gomes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirmou que estudos recentes indicam que mais de 60% dos óbitos causados pelo coronavírus no país são de pessoas negras. A quilombola ativista da Via Campesina, Selma Dealdina, e a socióloga política, Katucha Bento, professora da Universidade de Leeds, também enfatizaram em suas falas como a pandemia tem um impacto muito mais cruel sobre a população negra.

O Brasil é o país do mundo onde mais morrem profissionais do setor de saúde em consequência da covid-19. E as maiores vítimas são mulheres negras. Nas filas para receber o auxílio emergencial na Caixa Econômica Federal, a maioria são negros. E isso é reflexo de um sistema historicamente racista, hoje chamado de racismo estrutural. Uma forma de dizer que o sistema brasileiro tem preferência e privilegia uma parcela branca da sociedade. Um problema secular.

Um assunto urgente e pertinente, como as falas dos convidados que participaram da live, que se estendeu por duas horas e, até o início da noite desta quinta, já havia tido quase 900 visualizações. “Temos uma estrutura que está pronta para matar as pessoas negras, seja ela quem for. As pessoas que estão dentro do sistema, reproduzem o discurso colonial, porque é uma questão que continua fluindo”, disse Katucha Bento.

Ela ainda provocou: “Como os petroleiros vão se comprometer em modificar o racismo estrutural? Como vamos ser antirracistas?”. A questão foi prontamente atendida pelo petroleiro mediador, Jailton Andrade, que já articulou um grupo para fazer o debate dentro da própria Federação Única dos Petroleiros.

Trabalho e escravidão

O historiador Flávio Gomes enfatizou que os direitos trabalhistas conquistados no século XX, como a jornada de oito horas, e a consolidação das formas de organização da classe trabalhadora são resultado das lutas diárias dos trabalhadores, desde a escravidão. Ele criticou a falsa ideia de que há uma desvinculação da escravidão com o mundo do trabalho, pensamento que durante muito tempo foi reproduzido pelos manuais de história no Brasil. “É como se o trabalho só tivesse passado a existir após a abolição, como se a história do trabalho só pudesse estar vinculada à experiência do trabalhador livre”.

Flavio chamou também a atenção para as experiências de organizações de trabalhadores escravizados que ocorreram tanto nas áreas rurais, quanto nas áreas urbanas, citando o exemplo do movimento grevista que houve na Bahia, em 1857, denominado pelos historiadores de greve negra. “A imagem de que os trabalhadores negros não estavam preparados para o trabalho fabril, para o trabalho nas indústrias, após a abolição foi muito mais uma imagem da produção de um pensamento social e de uma historiografia, do que uma experiência do mundo do trabalho”, afirmou.

Quilombo

Selma Dealdina enfatizou que o sistema brasileiro conta uma história única e racista. Disse que a reforma agrária começou no quilombo, mas que essas terras nunca foram protegidas. “E assim, foram traçadas nossas linhas para que nós estivéssemos aqui. E dentro dessa estrutura há um crime perfeito: o racismo. Porque as pessoas o cometem, mas quem sofre o crime é que precisa provar!”.

Historicamente o Brasil racista impede a igualdade desde o fim do século XIX, quando, por lei, impediu que os quilombolas tivessem suas terras. O resultado dessa linha desigual na história é a desigualdade, escancarada na pandemia. “A covid-19 só veio para acentuar ainda mais esse problema. Lembre-se que a primeira vítima do vírus foi uma mulher negra e doméstica. Esse é o racismo estrutural e as chibatadas não vão cicatrizar”, completou Dealdina.

O que é racismo estratural, afinal?

Trata-se de uma questão que está mais nas instituições e dentro de uma retórica. É o estado autorizando no discurso ações excludentes. “Isso vem da ideia do colonizador. Do patrão. Do imperialista. Eles querem que quando a gente fala de raça, pensemos em divisão de classes. Ideia de hierarquizar as raças, mesmo que essas que já existiam antes”, disse Katucha.

Essa raiz, essa cultura, dentro da sociedade, naturaliza a violência que veio depois. “Não são as pessoas, mas as instituições que têm essa raiz. E é lógico que isso reflete na classe trabalhadora. Não é uma coisa romântica, o racismo mata. Sempre matou”, completou a pesquisadora.

Flávio Gomes tem a mesma opinião: “No Brasil, o racismo é algo muito mais institucional, estrutural, do que um preconceito de dimensão individual”. Ele chamou a atenção também para o fato do racismo ser visto como um problema que deve ser debatido pelos negros e não pela sociedade brasileira.

Selma Dealdina finalizou enfatizando que é sempre necessário discutir o racismo. “Precisamos falar cada vez mais. Nesse exato momento uma pessoa está sendo vítima de racismo em qualquer parte do planeta. Dentro disso, a luta quilombola é o reflexo da luta negra no país”.